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..Projetos para Internet
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...Macunaíma
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..Adaptação da obra de Mario de Andrade por Paula Maciel Barbosa. 2003
 
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...I
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Quando o herói saiu do banho estava branco louro e de olhos azuizinhos, água lavara o pretume dele.
No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente.

Era preto retinto e filho do medo da noite.

Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia.

Essa criança é que chamaram de Macunaíma.

De primeiro passou seis anos não falando.

Si o incitavam a falar exclamava: - Ai, que preguiça!...

 
 
...II
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Macunaíma foi passear nas costas de sua cunhada.

O longe estava bonito com muitos biguás e biguatingas avoando na entrada do furo.

A moça botou Macunaíma na praia porém ele principiou choramingando que tinha muita formiga!...

Assim que deitou o curumim nas tiriricas, ele botou corpo num átimo e ficou um príncipe lindo.

Andaram por lá muito.

Macunaíma gemia de gosto se agarrando no tronco gigante.

Então a moça abocanhou o dedo do pé dele e engoliu.

Macunaíma chorando de alegria tatuou o corpo dela com o sangue do pé.

 
 
..III
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Macunaíma e os irmãos partiram por esse mundo.

Já Vei, a sol, estava farta de tanto guascar o lombo dos três manos quando légua e meia adiante Macunaíma topou com uma cunhã dormindo.
Era Ci, Mãe do Mato. Logo viu, pelo peito destro seco dela, que a moça fazia parte dessa tribo de mulheres sozinhas parando lá nas praias da lagoa Espelho da Lua.
A cunhã era linda com o corpo chupado pelos vícios, colorido com jenipapo.
O herói se atirou por cima dela para brincar. Ci não queria. Macunaíma se aproximou e brincou com a Mãe do Mato.
Vieram então muitas jandaias, muitas araras vermelhas, muitos papagaios saldar Macunaíma, o novo Imperador do Mato-Virgem.
 
 
IV
O herói vivia sossegado.

Nem seis meses passaram e a Mãe do Mato pariu um filho encarnado. Vieram famosas mulatadas da Bahia, do Recife, do Rio Grande do Norte e da Paraíba, e deram pra Mãe do Mato um laçarote rubro, porque agora ela era mestra do cordão encarnado em todos os Pastoris de Natal. O pequerrucho tinha cabeça chata e Macunaíma inda a achatava mais batendo nela todos os dias e falando pro guri:

-Meu filho, cresce depressa pra você ir pra São Paulo ganhar muito dinheiro.

Vida feliz, era bom!

Mas uma feita, jacurutu pousou na maloca do Imperador e soltou o regougo agourento.

Então chegou a Cobra Preta e chupou o único peito vivo de Ci.

O curumim chupou, deu um suspiro envenenado e morreu.

Botaram o anjinho numa igaçaba esculpida com a forma de jaboti e o enterraram mesmo no centro da taba com muitos cantos e muita dança.

Terminada a função, a companheira de Macunaíma toda enfeitada ainda tirou do colar um muiraquitã famoso, deu-o pro companheiro e subiu pro céu em um cipó.

É lá que Ci vive agora, liberta das formigas, toda enfeitada ainda, toda enfeitada de luz, virada numa estrela.

É a Beta do Centauro.

No outro dia quando Macunaíma foi visitar o túmulo do filho viu que nascera do corpo uma plantinha.

Trataram dela com muito cuidado e foi o guaraná.

 
 
V

Os três estradeiros recomeçavam a caminhada através dos matos misteriosos.

E Macunaíma era sempre seguido pelo séqüito de araras vermelhas e jandaias.

Macunaíma pôs reparo que perdera a muiraquitã.

Ficou desesperado porque era a única lembrança que guardava de Ci.

O Negrinho do Pastoreio, pra quem Macunaíma rezava diariamente, se apiedou e resolveu ajudá-lo.

Mandou o passarinho uirapuru que agarrou cantando com doçura e o herói entendeu tudo que ele cantava.

E era que Macunaíma estava desinfeliz porque perdera a muiraquitã na praia do rio.

Uma tracajá engolira a muiraquitã e o mariscador que apanhara a tartaruga tinha vendido a pedra verde pro um regatão peruano se chamando Venceslau Pietro Pietra.

O dono do talismã enriquecera e parava fazendeiro lá em São Paulo.

Então Macunaíma disse pros manos que estava disposto a ir em São Paulo.

 
 
VI
 

Uma feita a Sol cobrira os três manos duma escaminha de suor e Macunaíma se lembrou de tomar banho.

Enxergou uma cova cheia d’água que nem a marca de um pé gigante.

Mas a água era encantada.

Quando o herói saiu do banho estava branco louro e de olhos azuizinhos, água lavara o pretume dele.
 
 
VII
 

Chegaram a São Paulo.

A inteligência do herói estava muito perturbada.

Que mundo de bichos!

Que despropósito de papões roncando!

A inteligência do herói estava muito perturbada.

As cunhãs rindo tinham ensinado pra ele que o sagüi-açu não era sagüim não, chamava elevador e era uma máquina.

E tudo na cidade era só máquina!

O herói aprendendo calado.

De vez em quando estremecia.

Voltava a ficar imóvel escutando assuntando maquinando numa cisma assombrada.

Tomou-o um respeito cheio de inveja por essa deusa de deveras forçuda.

De toda essa embrulhada o pensamento dele sacou bem clarinha uma luz:

Os homens é que eram máquinas e as máquinas é que eram homens.

Macunaíma deu uma grande gargalhada.

Percebeu que estava livre outra vez.

Virou o irmão na máquina telefone e ligou pros cabarés encomendando lagosta e francesas.

 
 
..VIII
 

E assim nosso herói continua na cidade tentando reencontrar seu amuleto.

Tem encontros e desencontros com Venceslau Pietro Pietra que é também o gigante Piaimã.
Faz macumba e trapaças até que vence o gigante e vai embora de São Paulo com sua muiraquitã.
Mas não vê mais sentido na vida e tem em Vei, a Sol, sua inimiga, pois preferiu uma européia a uma de suas filhas.
Vei se vinga fazendo com que Macunaíma pule na água sem perceber que a cunhã lindíssima era a Uiara.
Na luta entre os dois, Macunaíma perde a perna direita, os dedões, as orelhas, o nariz e a muiraquitã.
Desiste da vida e sobe ao céu. Virou a Ursa Maior, porque não veio ao mundo para ser pedra.
 
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